Tempo de Jogo:
7565 minutos
Dark Souls é um RPG 3D de mundo aberto, com elementos de hack and slash, conhecido principalmente por sua dificuldade e por uma narrativa pouco intrusiva. E, por muito tempo, isso nunca foi suficiente para me interessar de verdade pelo jogo.
Não é que esses elementos fossem ruins, pelo contrário, mas, pra mim, faltava algo que despertasse vontade de jogar. Algo além das mecânicas ou da forma como o enredo é construído. Afinal, era isso que meus amigos e grande parte da comunidade sempre destacavam quando falavam do jogo.
Só que Dark Souls é mais do que isso. Ele tem um enredo e, principalmente, ambientações únicas, que dizem muito mais do que qualquer explicação direta.
A premissa da história é simples e muito interessante. Em um mundo estático de dragões, onde nada acontece, tudo muda com o surgimento de uma chama, que cria contrastes como frio e calor, morte e vida. A partir dela surgem seres que encontram as almas dos lordes e se tornam poderosos. Insatisfeitos com esse mundo imutável, esses lordes derrotam os dragões e inauguram uma nova era.
A partir daí, surge a profecia de que um dia um Undead, um humano capaz de reviver, mas que perde parte de sua sanidade a cada morte, irá derrotar os lordes e reacender a chama que, apesar de tudo, está se apagando.
Com o tempo, porém, fica claro que essa profecia não é consenso. Existe uma disputa constante sobre o que deve ser feito: manter a chama acesa ou deixá-la se apagar. O jogo inicialmente aponta para a ideia de reacendê-la como algo natural ou correto, e só em uma nova jornada outras versões dessa história ficam mais evidentes. Isso é algo que me incomoda um pouco, já que Dark Souls é longo demais para depender de uma segunda run como principal forma de apresentar esse outro ponto de vista. Ainda assim, entendo a escolha dos desenvolvedores.
O mundo do jogo também é interessante por não apresentar uma verdade única. Existem cultos, pactos e crenças diferentes, cada um com suas próprias regras e consequências. O jogador pode se vincular a esses sistemas, lidar com ideias como pecado e perdão, e sentir o peso das próprias escolhas. Isso reforça a sensação de um mundo fragmentado, onde não existe uma resposta clara ou definitiva.
Apesar disso, o que mais me decepciona é a forma exagerada como a narrativa não intrusiva é usada. É interessante que parte da história esteja nos itens e nos cenários, mas a quantidade de informações espalhadas dessa forma torna impossível absorver tudo jogando normalmente. Isso faz com que muitos jogadores terminem o jogo sem entender sequer o cerne da história. A ideia de deixar o mundo contar a história é ótima, mas não deveria servir como desculpa para largar a narrativa de forma excessivamente fragmentada.
Em termos de ambientação, Dark Souls é fenomenal. O level design é excepcional, com áreas que se conectam de forma inteligente e criam uma sensação constante de imersão. O jogo alterna entre lugares sombrios, solitários e claustrofóbicos, e momentos de respiro com vistas amplas e bonitas. A ausência de trilha sonora fora das batalhas contra chefes reforça muito bem essa sensação de solidão, embora em alguns momentos possa se tornar um pouco monótona. Em contraste, as músicas dos chefes são excelentes e combinam perfeitamente com a estética e o clima de cada confronto.
O jogo é conhecido pela dificuldade e, como iniciante em soulslike, eu sofri bastante no começo. Ainda assim, os próprios bosses funcionam como professores. Com o tempo, fica claro que Dark Souls é muito mais sobre movimentação e paciência do que sobre reflexos rápidos. Justamente por isso, derrotar inimigos e chefes é extremamente satisfatório.
Infelizmente, o jogo também sofre com problemas técnicos. Bugs acontecem com frequência, e considerando que muitas decisões são irreversíveis, isso pode ser frustrante. Além disso, o movimento de câmera é ruim, algo difícil de justificar em um remaster de 2018 que continua sendo vendido a preço cheio.
O balanceamento também levanta questões. Armas muito fortes podem ser encontradas cedo demais, e as melhores armaduras ficam disponíveis no meio do jogo, em áreas que todo jogador acaba alcançando. Isso contribui para uma curva de dificuldade irregular, onde alguns chefes do início são mais difíceis do que muitos do final. A mecânica de convocar NPCs ajuda a equilibrar isso em certos momentos, mas o online, no geral, é problemático. A ideia é interessante, mas na prática o desbalanceamento entre jogadores experientes e iniciantes torna a experiência injusta, algo que felizmente pode ser contornado jogando offline.
Apesar de tudo isso, Dark Souls conseguiu algo raro. Mesmo com falhas claras, eu continuei jogando por horas todos os dias e acabei zerando o jogo em poucos dias. A combinação entre a premissa, o universo, os personagens, o combate em terceira pessoa com espadas e o level design criam uma experiência extremamente envolvente. Eu queria descobrir mais sobre aquele mundo, entender melhor sua história e ver até onde aquela jornada iria.
No fim, o que sustenta Dark Souls para mim é justamente sua ideia central. Os problemas não tornam o jogo ruim, apenas impedem que ele seja perfeito. Pelo impacto da experiência, pela força da premissa e pelo conjunto da obra, Dark Souls merece um sólido 9/10.
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